“Entrada de leão, saída de cordeiro…”,


“Entrada de leão, saída de cordeiro…”, (2007) in ID10, Porto, GESTO, 2007


Eu sei que brinco com as ideias para as perceber e para as encaixar umas nas outras. Gregory Bateson,para a filha BATESON,Gregory . Metadiálogos , Gradiva,Lisboa,1996 num outro qualquer dia percebi como havia quem estivesse descontente com o IDENTIDADES.Não surpreso,senti-me suspenso na verificação de que estes 10 anos passados construíram alegrias desmesuradas,partilhas indizíveis,realidades positivas e,também, descontentamentos. neste texto,de um optimista,parece-me bem centrar este pessoal olhar nesses descontentamentos,espelho do muito que se desejaria ter feito, imagem das curvas dos caminhos percorridos,da incapacidade de compreender bem o que nos rodeou,do infinito sempre inalcançável. mangas arregaçadas,varro para canto as alegrias imensas,o sentimento transversal de sucesso que colo ao IDENTIDADES,o calor dos olhos em tantos rostos desfrutados,... igualmente despeço os ‘problemas’concretos e inibidores de outros voos,os dinheiros insuficientes,a escassez do tempo e a rapidez do calendário,... pretende-se,apenas,mergulhar no descontentamento,certo que assim não provocarei nesta edição repetições enfadonhas,ou,se aparecerem, pelo menos elas resultarão de uma focagem inesperada,de uma resposta que se limita a um certo ‘ponto de vista’ o texto,dirigido assim para o plano do descontentamento,não deixa no entanto de ser tranquilo,como se fosse escrito por quem está estirado sem pressas numa esplanada qualquer,saboreando uma possível Laurentina gelada,pensando despreocupadamente nos relevos percorridos,nas inquietações alheias ou próprias ou nas nuvens inexistentes... então,... descontentamentos escolares (...) O fragmento torna-se ele próprio sistema no caso de se renunciar à pressuposição da sua pertença a um sistema.(...) CALABRESE,Omar , A Idade Neobarroca, Edições 70,Lisboa,1999 o IDENTIDADESsempre se moveu em espaços escolares,ou pelo menos sempre a partir deles,centros de excelência para a proliferação do descontentamento. como docente nunca me situei como instrumento de transmissão de conjuntos de informação aos estudantes e de verificador da sua capacidade de retenção,mas sim como um provocador de situações relacionais,geradoras de compreensões individualizadas e íntimas que, no campo do ‘ensino artístico’em que nos movemos,comandem as práticas artísticas dos que nele crescem e dominem o desenho dos ‘percursos autorais’que cada um vai trilhando ou perspectiva. e a arte como precisando sempre dessa busca incessante de introspecção e de interrelação cultural... na arena relacional em que me movo,e onde o IDENTIDADESem grande parte se exerce,a marca da ‘vida escolar’nunca deixa de dominar e dela transpira um sentimento de insatisfação e o reconhecimento avassalador da sua insuficiência. e,estas insatisfações face à arquitectura educativa da escola, dimensionam um plano aberto onde a actividade fraccionária que neste projecto se processa não assume iluminação suficiente para exigir uma observação com um outro diafragma. reserva-se apenas ao IDENTIDADESum espaço vivencial fragmentário, insatisfeito por não perturbar o todo,sem força para suprir carências que lhe são exteriores. espaço de duplicidade para quem se move dentro da instituição escolar, coexistindo com as suas lógicas e,em simultâneo,quase em paralelo, apenas com tangências frugais se lhe opõe,soltando as amarras para navegar sem norte certo para procurar consciências,capacidades e confiança relativamente à arte e à cultura,também nos campos que lhe são exteriores e em geografias que não as nossas. a paisagem se em plano aberto é vista,na maior parte das vezes como desinteressante,permite também pormenores de uma outra irreverência,detalhes ricos e animados que não inundando o todo lhe conferem,quem sabe a sua verdadeira dimensão desoladora? e,se assim pode ser,o descontentamento resulta da verificação desse contraste,da incapacidade de se inundar eficazmente a ‘vida escolar’,de um assumir de outra capacidade de derrubar os muros e atentar no que lhe é exterior,... partilhas insuficientes “(...) cada cultura é composta por um conjunto de elementos incomparáveis.Nas suas versões mais críticas,esta concepção denuncia a cegueira etnocênctrica dos que acreditam poder postular o carácter universal da cultura moderna,cujas pretensões nunca reflectiram mais do que o discurso de uma cultura dominante - branca,masculina, ocidental.(...)” WIEVIORKA,Michel, A Diferença, Fenda,Lisboa,2002 (pp18/9) queremos compreender melhor o ‘campo da arte’,a ‘arte pública’,a ‘intervenção’,os ‘outros mundos’que fazem parte do ‘global’,através da partilha comparada em experiências de interculturalidade e usar essas vivências como inspiração para as nossas próprias maneiras de proceder,na arte,na vida,... foram muitos os espaços,os tempos e as geografias onde se instalaram, nestes 10 anos,intercâmbios,animações e intervenções,oficinas, tertúlias, exposições, sessões, edições, aulas partilhadas, reuniões, viagens, relatórios,... forjaram-se momentos interculturais,onde as nossas incertezas perante a ‘cultura’e a ‘arte’moveram a discussão e a acção,não dominadora e exemplar,mas confusa,democrática e de procura... a atenção dispensada por cada um nos eventos participados e a observação pessoal exercida sobre ‘tudo o que se passou’variaram, naturalmente,na proporção da incorporação individual dessa aprendizagem. sem matar nunca a sede,os líquidos tão imensos quanto insuficientes, como não poderia deixar de o ser,... este jogo voluntário e esforçado de entreajudas deveria permitir aos participantes,a cada um,um melhor conhecimento de si,um modo de cada um ser capaz de tirar de si as suas melhores qualidades,e isso para todos,portugueses,moçambicanos,quilombolas,... estamos,nesse sentido num mar onde tudo que se faz,se pesca,é acrescento,é alimento,é positivo e esse sentimento domina mas porque não sabemos verdadeiramente apreciar os manjares desconhecidos que se nos são oferecidos? porque resistimos tanto a provar sabores novos? porque tendemos a medir tudo pelos padrões eurocêntricos? porque somos nós os contemporâneos? o facto,é que nos mantemos ‘desconsolados’no fim de cada banquete in.comunicabilidade Onde há perigo é o lugar da experiência:etimologicamente,‘experiência’ (de ex-periri) significa travessia arriscada (e também o alemão Erfahrung contém os semas de travessia — fahren_ e de perigo _ Gegahr).(...) BARRENTO,João, Ler o que não foi escrito - conversa inacabada entre Walter Benjamin e Paul Celon, Livros Cotovia,Lisboa,2005,(pp53) há um aspecto aparentemente externo que intersecta o IDENTIDADES a maioria dos intervenientes portugueses deste movimento,estudantes na FBAUP,foram,ao longo dos tempos passando de ano,concluindo seus cursos,‘ingressando no mercado de trabalho’,encontrando a sua ‘personalidade autoral’,definindo o seu ‘campo artístico’,determinando as suas autonomias enquanto outros se iam aproximando,identificando seu interesse na participação neste movimento de intercâmbio artístico. e aqui se instala um primeiro nível de descontentamento pela insuficiente comunicabilidade estabelecida entre as ‘gerações’do IDENTIDADES não se trata de recusa de comunicação,ou de ausência de diálogo,mas do simples e natural facto de cada um se centrar ‘no seu ponto de vista’,partir da ‘sua experiência’,do pulsar próprio através da ‘sua inspiração criadora’ nada a estranhar num movimento que pretende verter para dentro de cada unidade as ‘relações interculturais’que estabelece,se não fosse o movimento de ‘intercâmbio’e o sentido do intercultural intrinsecamente de comunicação e é tanto o que se perde nesta incapacidade de nos sugarmos uns aos outros,de não nos conseguirmos despir do vício do ‘isolamento do artista’,... como se no isolamento fosse possível estabelecer uma ampla compreensão da ‘arte contemporânea’,do ‘génio criador’,ou do que seja... são ‘tradições’enraizadas de há muito,qual romantismo persistente em nós,enfatizadas pela relação estabelecida na escola,aplaudida pela maioria dos intervenientes no ‘campo da arte’,não-artistas,que mais não pretendem que afastar o ‘artista’do espaço/entidade consagrador da arte contemporânea,que pretendem lhe seja externo. e um outro plano de incomunicabilidade (ou de descontentamento) se estabelece quando nos afrontamos com ‘estudantes de arte’,‘professores de arte’e outros ‘artistas’,nas geografias que percorremos e não sabemos incluir nessa experiência intercultural a investigação das diferenças existentes ou quando nos contentamos em verificar os esforços de aproximação que são realizados noutras latitudes afastadas do ‘centro dinamizador da arte globalizada’,e nos sentimos desejados e exemplo e,assim, perdemos a oportunidade de colocar em confronto os dilemas que a ’arte do ocidente’nunca soube resolver... ou mesmo não sabemos investigar a hipocrisia de muitos esforços do pos-colonialismo que se alimenta de novos exercícios de sofisticada excentricidade periférica,ou da conversão dos ‘primitivos’ao ‘contemporâneo’,... temos sido extremamente audazes nos desafios em que nos colocamos, nas ‘travessias arriscadas’que realizámos,sabendo ser o lugar da experiência sempre um risco,um perigo e,por isso,o nosso descontentamento apenas acalenta novas caminhadas e nesse laboratório prenhe de complexidade e de perigo desnorteamo-nos com as dificuldades de produzir compreensão e conhecimento e desesperamos com a permanência eterna da experiência tristezas quilombolas aqui a tristeza,descontentamento,dominante em que esteve na comunidade de Conceição das Crioulas,no sertão pernambucano do Brasil,reside no facto de não podermos ser de lá,não na insuficiência da partilha mas na incapacidade de poder incorporar aquela comunidade,lhe sugar a experiência,absorver o apego há vida, aprender o optimismo,corresponder à intensidade das suas lutas,hoje transformadas em nossas... aqui o descontentamento é também a partilha dos ‘problemas’da comunidade e o reconhecido limite da nossa intervenção e o mesmo diríamos face ao agreste viver da comunidade piscatória de S.Pedro em Cabo Verde,e também ... desenvolver o descontentamento Metas de desenvolvimento do milénio: Erradicar a extrema pobreza e a fome Atingir o ensino básico universal Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres Reduzir a mortalidade infantil Melhorar a saúde materna Combater o HIV/AIDS,a malária e outras doenças Garantir a sustentabilidade ambiental Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento http://www.undp.org.br/milenio/default.asp naturalmente estamos descontentes com o mundo,esta ‘terra’ desequilibrada onde vivemos ‘todos’,com a arrogância e ganância dos detentores do poder e com os insignificantes progressos que lentamente se vão realizando e esforçamo-nos por ‘incluir’o que quase todos se esforçam por ‘excluir’quando se refere a ‘terra’ mas,nunca saberemos medir o efeito que o IDENTIDADESproduz,... que memória ocupamos em todos com quem nos cruzamos? que influência exerceu a actividade desenvolvida e participada por tantos nestes longos 10 anos? seriam essas pessoas as mesmas que são hoje sem o IDENTIDADES? nem cada um de nós saberá,ao certo,medir ou indicar o papel de fermento exercido pelo IDENTIDADESna sua própria vida mas sabemos expressar o descontentamento por não termos sido mais eficazes no envolvimento efectuado e geradores de maior desENVOLVIMENTO nunca assumimos responsabilidades especiais,perante nós próprios nem perante ninguém,mas que nos envolvemos nos problemas dos outros, nossos,de cada um,isso sim... e a ENAV,com o crescimento do seu desempenho,a criação da M-EIA,correspondem,em certa medida a resultados partilhados são também nossos os seus resultados e nossos os seus descontentamentos e também por isso,continuaremos descontentes Acho que virei antropófaga,tenho vontade de comer todo o mundo que amo. CLARK,Lygia , carta a Hélio Oiticica, 1964 ¿Que é o que nos gusta? ¿Que é o que nos gusta? (...) ¿Gústanos a arte? ¿Gústalle a arte aos artistas, aos galeristas,aos críticos de arte? ¿Gústalle a arte aos historiadores da arte,aos profesores de arte? ¿Gustalle a arte ós directores dos museos e centros de arte, aos conservadores,aos responsables das exposicións,dos catálogos? gústalles a arte aos aficionados á arte,aos coleccionistas,aos visitantes das exposicións? Habería que preguntarse qué é a arte. Olivares,R. , Lo que nos gusta, Lapiz, año XVI,n°132,p.3. viveremos com o descontentamento dentro de nós,sem aliviar o sofrimento que ele nos causa,sem esmorecer,... esse é o nosso movimento... não radioso de alegrias inebriantes,nem vitorioso mas real, inquietante, perguntativo, incomodado, persistente simplesmente ... de continuidade